Quem foi Zélia Amador? Conheça a trajetória da professora e referência do movimento negro no Pará


Professora, escritora e ativista morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, em Belém
É difícil contar a história recente da luta antirracista, da cultura e da própria Universidade Federal do Pará (UFPA) sem passar por Zélia Amador de Deus. Professora, escritora, atriz, diretora de teatro e ativista, ela morreu aos 74 anos nesta terça-feira (8), em Belém, depois de mais de cinco décadas de atuação em diferentes espaços da vida pública paraense.
Natural de Salvaterra, no Arquipélago do Marajó, Zélia ingressou no curso de Letras da UFPA em 1971. O que começou como uma trajetória acadêmica se transformou em uma relação de mais de cinco décadas com a universidade. Nesse período, ela foi professora, pesquisadora, artista, gestora e uma das principais vozes na defesa da população negra e das políticas de inclusão no ensino superior.
O velório será realizado no Teatro Experimental Waldemar Henrique, em Belém, a partir das 23h. A UFPA decretou luto oficial de três dias pela morte da professora.
Da arte à universidade
Antes de se tornar uma das principais referências da luta antirracista no Pará, Zélia também construiu uma trajetória ligada ao teatro. Nos anos 1970, a arte passou a fazer parte de sua formação e atuação profissional.
Em 1976, ao lado de Margareth Refkalefsky e Walter Bandeira, participou da fundação da Companhia de Teatro Cena Aberta. Como atriz, interpretou Catirina, em Coronel de Macambira, e Suely, em Quarto de Empregada. Também atuou como diretora e transformou o palco em espaço de criação e expressão.
Em 1978, voltou à UFPA como professora. Ligada à área de Artes, ministrou disciplinas como História da Arte, Estética e História e Teoria do Teatro. Também participou da construção do Núcleo de Arte, estrutura que está na origem do atual Instituto de Ciências da Arte (ICA).
Zélia também ocupou a gestão da UFPA
A atuação de Zélia dentro da universidade foi além da sala de aula. Entre 1989 e 1993, dirigiu o então Centro de Letras e Artes (CLA). Depois, entre 1993 e 1997, ocupou o cargo de vice-reitora da UFPA.
Durante esse período, também esteve envolvida na idealização do Auto do Círio, projeto de extensão que leva às ruas de Belém diferentes manifestações artísticas e culturais e se tornou uma das experiências mais tradicionais de extensão cultural da universidade.
Décadas depois de ingressar na instituição, Zélia continuava atuando na construção de políticas de inclusão. Em 2016, tornou-se a primeira assessora da Diversidade e Inclusão Social da UFPA, função criada para tratar de políticas de diversidade e inclusão na universidade.
Uma das referências do movimento negro no Pará
A atuação política acompanhou Zélia desde os anos de formação. Em 1980, ela esteve entre as fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que se tornou uma referência do movimento negro na Amazônia.
A entidade teve forte participação de mulheres e também ajudou a ampliar, dentro do movimento negro, a discussão sobre as especificidades enfrentadas pelas mulheres negras.
Zélia participou de articulações nacionais e internacionais contra o racismo. Em 2001, integrou a representação brasileira na III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul.
Também atuou na defesa de direitos das comunidades quilombolas e na construção de políticas de ação afirmativa. Na UFPA, participou da criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM) e das discussões que contribuíram para a adoção da reserva de vagas na instituição.
Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, em 2020, resumiu a dimensão dessa transformação: “Não tenho dúvida de que as políticas de ação afirmativa mudaram o perfil da UFPA”.
A professora que virou referência
Zélia transformou parte das experiências vividas na militância e na universidade em produção acadêmica. Graduada em Língua Portuguesa, ela também tinha especialização em Teoria Literária, mestrado em Estudos Literários e doutorado em Ciências Sociais.
Um dos conceitos que atravessaram sua produção foi o de Ananse, figura associada à tradição dos povos fanti-ashanti e à capacidade de tecer histórias e redes. A imagem da aranha serviu como referência para suas reflexões sobre a diáspora africana, memória e resistência.
Em 2019, publicou Ananse tecendo teias na diáspora: uma narrativa de resistência e luta das herdeiras e dos herdeiros de Ananse, obra relacionada à pesquisa desenvolvida durante o doutorado.
No mesmo ano, a UFPA concedeu a Zélia o título de Professora Emérita. Ela se tornou a primeira mulher negra a receber a honraria na universidade. A cerimônia ocorreu em março de 2020 e reuniu representantes de movimentos sociais e estudantes indígenas, quilombolas e africanos.
Obra de Zélia pode virar patrimônio cultural do Pará
A produção de Zélia também estava no centro de uma proposta em tramitação na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). Um projeto de lei de autoria da deputada Lívia Duarte propunha reconhecer a obra literária da professora como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Pará.
A proposta recebeu parecer favorável das comissões de Justiça e Cultura e estava prevista para ser analisada em turno único nesta terça-feira (8), data da morte da professora.
Na justificativa, a deputada destacou a atuação de Zélia como professora, doutora, artista, escritora e militante histórica do movimento negro. O texto também cita a participação dela na formação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), no fim dos anos 1970, e na fundação do Cedenpa.
Entre as obras citadas está Caminhos Trilhados na Luta Antirracista, que registra momentos da luta contra a ditadura militar, da redemocratização e da organização do movimento negro contemporâneo.
Ao longo de 74 anos, Zélia Amador de Deus ocupou diferentes espaços e ajudou a transformá-los. No teatro, na universidade, na pesquisa e na militância, construiu uma trajetória que se confunde com parte da história da cultura e da luta antirracista no Pará.
Fonte: O Liberal
Texto: Hannah Franco

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