Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira




UMA BRASILEIRA AJUDOU A ESCREVER A IGUALDADE NA CARTA DA ONU.

E o nome dela era Bertha Lutz.

Nascida em São Paulo, em 1894, Bertha foi cientista, bióloga, feminista, política e diplomata. Mas sua história começou muito antes de ela chegar aos grandes salões da política internacional.

Em 1918, formou-se em Ciências Naturais na França. No ano seguinte, voltou ao Brasil e foi aprovada em concurso para trabalhar no Museu Nacional, tornando-se uma das primeiras mulheres a ingressar no serviço público federal por concurso, segundo a Câmara dos Deputados.

Mas Bertha não queria apenas estudar a natureza. Ela queria mudar a posição das mulheres dentro da sociedade brasileira.

Em 1919, ajudou a criar a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher. Em 1922, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que passou a atuar diretamente pela conquista dos direitos políticos das mulheres.

E essa luta deu resultado.

Em 1932, o Brasil finalmente reconheceu o direito de voto das mulheres. A Câmara dos Deputados destaca a participação decisiva de Bertha nesse processo, que vinha sendo construído por décadas de mobilização das sufragistas brasileiras.

Em 1934, Bertha foi eleita primeira suplente para a Câmara dos Deputados. Em 1936, assumiu o mandato e passou a defender, entre outras pautas, igualdade salarial, licença para gestantes e mudanças na legislação trabalhista.

Mas ainda faltava a parte mais extraordinária dessa história.

Em 1945, o mundo estava saindo da Segunda Guerra Mundial e representantes de 50 países se reuniram em São Francisco, nos Estados Unidos, para criar uma nova organização internacional: a Organização das Nações Unidas.

Entre os centenas de delegados, havia pouquíssimas mulheres.

E uma delas era brasileira.

Bertha Lutz.

Segundo a própria ONU, Bertha teve papel central na inclusão da igualdade de direitos entre homens e mulheres na Carta das Nações Unidas. Ela liderou, junto com outras diplomatas latino-americanas, os esforços para que essa igualdade fosse registrada no documento fundador da organização.

O resultado está escrito no preâmbulo da Carta da ONU:

“...a igualdade de direito dos homens e das mulheres...”

E não estamos falando de uma frase qualquer.

A Carta das Nações Unidas foi assinada em 26 de junho de 1945. Apenas quatro mulheres que integravam as delegações nacionais assinaram o documento. Uma delas era Bertha Lutz, representando o Brasil.

É difícil olhar para essa história e não sentir orgulho.

Uma brasileira que começou sua carreira estudando biologia terminou sua trajetória ajudando a colocar os direitos das mulheres no documento que deu origem à ONU.

Bertha Lutz morreu no Rio de Janeiro, em setembro de 1976.

Mas seu nome ficou registrado em dois lugares que ajudam a dimensionar sua trajetória: na história do voto feminino no Brasil e na própria fundação das Nações Unidas.

Bertha Lutz não foi uma brasileira que ajudou a escrever uma parte da história do mundo.

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