A voz de Jessé nas marcantes canções que ele interpretava
Eu tenho uma lembrança afetiva de Jessé por causa das minhas irmãs. A casa tinha fita cassete rodando, tinha rádio ligado na sala, tinha aquela repetição quase ritual de quem ama uma música e precisa ouvi-la de novo para confirmar o que sentiu da primeira vez. Eu era criança quando ele morreu. E me lembro.
Lembro porque foi perto da minha cidade, em Ourinhos. Lembro dos adultos comentando, do susto na voz deles, do modo como aquele nome atravessou a sala. Foi a primeira vez que percebi que artistas também morrem de forma abrupta, na estrada, a caminho de um palco. A notícia ficou no meu imaginário como uma marca geográfica e emocional.
Jessé Florentino Santos nasceu em 25 de abril de 1952, em Niterói, no Rio de Janeiro. Filho de pastor presbiteriano, cresceu dentro da igreja. A música começou ali, entre hinos e bancos de madeira. O pai percebeu cedo a potência vocal do menino e o colocava para cantar diante da congregação. Aos dez anos, já tocava violão e órgão. A técnica, a projeção, o domínio da respiração vieram desse ambiente disciplinado, quase litúrgico.
A família mudou-se para Brasília quando ele tinha seis anos. Foi ali que a adolescência trouxe a inquietação natural de quem deseja palco. Aos quatorze, montou banda para tocar em bailes. O nome bíblico carregava expectativa pastoral. A vocação artística falava mais alto.
Em 1974, mudou-se para São Paulo. A noite, as boates, os testes, os grupos musicais. Passou pelo Corrente de Força e pelo Placa Luminosa. Gravou “Velho Demais”, que se tornou tema da novela Sem Lenço, Sem Documento, da Rede Globo.
Era a década em que muitos cantores brasileiros gravavam em inglês com pseudônimos. Jessé tornou-se Tony Stevens. Como Tony Stevens, emplacou sucessos internacionais e viveu a experiência curiosa de ouvir sua própria voz no rádio sendo anunciada como estrangeira. Ele mesmo relatava que andava de ônibus enquanto as pessoas elogiavam o cantor “gringo” sem imaginar que ele estava ali ao lado.
Em 1980 veio a virada. Participou do Festival MPB Shell, da Rede Globo, com “Porto Solidão”, composição de Zeca Bahia e Gaby. A história de que ele sentou ao piano e declarou que venceria com aquela música percorre seus relatos biográficos. Ele não levou o primeiro lugar geral, mas ganhou o prêmio de Melhor Intérprete. Esse reconhecimento o projetou nacionalmente. O público passou a conhecer o nome Jessé.
Vieram “Voa Liberdade”, “Solidão de Amigos”, “Estrela de Papel”. Em 1983, venceu o XII Festival da Canção em Newport, nos Estados Unidos, com “Estrela de Papel”. Ao longo de dezoito anos de carreira, gravou doze álbuns. Lotou shows. Recebeu o carinho popular. A crítica especializada manteve distância. A história da música brasileira guarda muitos artistas que vivem essa tensão entre plateia e caderno cultural.
Jessé construiu família, teve filhos, seguiu cantando com intensidade. Havia também a velocidade. Ele gostava de correr, de dirigir rápido. Falava disso em entrevistas com franqueza. Reconhecia o impulso, buscou tratamento para compreender essa necessidade constante de acelerar. Um ano antes da tragédia, sofreu um acidente de moto que quase lhe custou a vida.
No dia 29 de março de 1993, viajava com a esposa Rosane, grávida de cinco meses, em um Escort XR3 conversível rumo a Terra Rica, no Paraná, onde faria um show. Na Rodovia Raposo Tavares, próximo a Ourinhos, perdeu o controle do carro. O veículo bateu no barranco e capotou. Jessé sofreu traumatismo craniano grave. A morte cerebral foi confirmada em 30 de março de 1993. Tinha quarenta anos.
Rosane sobreviveu. A criança não.
Eu era criança. E me lembro.
Hoje, olhando para trás com a lente de pesquisador e com o coração de quem cresceu ouvindo aquelas músicas na sala de casa, vejo a trajetória de um artista que atravessou igreja, pseudônimo internacional, festivais, novelas, aplausos e estradas. Um cantor que construiu uma obra sólida em pouco tempo. Doze discos. Uma assinatura vocal reconhecível nos primeiros segundos.
Quando “Porto Solidão” começa, a minha infância retorna. Minhas irmãs cantando, a casa respirando música, o mundo ainda enorme diante de mim. A notícia do acidente também volta, como volta toda memória que marca uma geração.
Algumas vozes permanecem como paisagem sonora da nossa formação. A de Jessé permanece na minha.
Fonte: Fagner Oliveira (Texto e Foto)
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