Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Qual é o preço que a gente paga por ser quem a gente é? Eu pergunto isso antes de escrever sobre qualquer vida que precisou existir se defendendo. No caso de Jorge Lafond, essa pergunta não nasce da filosofia. Ela sai da prática. Sai da pele. Sai do corpo que ele teve que colocar no mundo sem manual de sobrevivência.
Penso no menino que nasceu em 1952, em Nilópolis, e cresceu na Penha, em um Brasil que tratava o preconceito como regra da casa. Racismo, homofobia, vigilância social. Tudo explícito, assumido, reforçado. Um país que controlava até o jeito de andar de um menino negro. Um país que transformava qualquer traço de feminilidade em alvo. Um país que obrigava uma criança a prestar contas da própria existência.
Jorge tinha seis anos quando percebeu que havia algo nele que o mundo observava com dureza. E quando uma criança entende isso, ela começa a administrar a própria personalidade como quem administra uma bomba. Ele decidiu ser impecável. O aluno que nunca errava. O filho que não criava ruído. Ele acreditava que a perfeição podia servir como colete. Ele se encaixava no comportamento que acreditava ser seguro. Não por vaidade. Mas por medo. Medo profundo, silencioso, envergonhado. O tipo de medo que ensina a respirar em silêncio para não chamar atenção.
Com nove anos, já trabalhava numa oficina mecânica. A imagem desse menino carregando ferramentas maiores que as mãos dele sempre me acerta. Ali havia graxa, ruído, homens que observavam tudo, uma lógica de masculinidade rígida que não deixava espaço para qualquer delicadeza. Ele regulava cada gesto. Cada movimento tinha que passar despercebido. Qualquer trejeito que escapasse poderia virar motivo de comentário, então ele controlava até o jeito de respirar. A oficina funcionava como uma espécie de escola da contenção.
Nos fins de semana, ajudava a mãe no parque de diversões. Quem olha de fora imagina alegria. Mas eu vejo outra coisa: vejo um menino que precisava se policiar o tempo inteiro diante de pessoas desconhecidas. Ele vendia fichas, organizava filas, limpava bancos de brinquedos. Aquelas luzes coloridas iluminavam tudo, inclusive os medos que ele escondia. O parque nunca foi refúgio. Era palco involuntário. Era exposição.
E então a vida fez um movimento improvável. Ele começou a estudar balé no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Aos nove anos, um menino negro do subúrbio atravessava um dos espaços mais elitizados da cidade. Aquilo por si só já era um acontecimento político. O corpo dele que a rua vigiava ali ganhava outra função. Era instrumento. Era expressão. Era domínio técnico. Ele mergulhou na dança clássica, na dança afro, na teoria do movimento. Viajou pela Europa e pelos Estados Unidos com o grupo de Haroldo Costa. Estudou Educação Física. Formou-se em Teatro pela UNIRIO. Ele construiu uma formação sólida em meio a portas que quase nunca se abriam para pessoas como ele.
O nome artístico nasceu dessa necessidade de ampliar o próprio alcance. “Lafond”, inspirado em Monique Lafond, virou assinatura. Ele construiu uma presença. Criou uma camada a mais. Ele sabia que um nome pode organizar a forma como o mundo olha pra gente.
Mesmo assim, o Brasil não sabia lidar com ele. No Fantástico, onde foi um dos primeiros negros do corpo de baile, recebia papéis reduzidos porque o brilho dele chamava atenção. E numa televisão que tratava diferença como inconveniência, chamar atenção tinha consequências. Ele identificou esse movimento e fez uma escolha estratégica. Transformou humor em ferramenta. Transformou deboche em proteção. Transformou exagero em linguagem.
E aqui entra a reflexão que precisava aparecer neste ponto. No trote da faculdade, rasgaram o black power dele. Aquilo não foi brincadeira. Foi agressão direta ao que ele era. E eu penso no que acontece dentro de alguém quando o mundo usa hostilidade como forma de classificação. A gente aprende a usar a mesma arma contra o mundo. É um mecanismo de sobrevivência. Quando ele olhou no espelho depois do trote e viu o cabelo destruído, não permitiu que aquilo se transformasse em vergonha. Adotou a cabeça raspada como marca. É assim que se faz quando a vida tenta encolher a gente: pega o golpe e transforma em imagem. É o mesmo movimento que transforma a palavra “bicha”, usada durante anos como insulto, em identidade dentro da própria comunidade. Não é só resistência. É apropriação. É tomar a arma que feriu e devolvê-la reorganizada. Ele fez isso com a própria estética. Transformou violência em imagem que sustentou pelo resto da vida.
E então veio Vera Verão.
Vera não foi personagem. Foi acontecimento. Ela chegava ao palco com exagero, brilho, deboche, energia. A frase “Êpa! Bicha não!” virou parte do país. Não era bordão. Era código. Era linguagem política disfarçada de humor. A Vera deslocou a estrutura da televisão ao exibir um corpo negro, altíssimo, afeminado, em horário nobre, atravessando a sala de estar de famílias conservadoras. Ela reorganizou a ideia do que era possível no humor brasileiro. Eu, pesquisador, observo ali uma inteligência que poucos compreenderam na época. A Vera era máscara, escudo, palco e megafone ao mesmo tempo.
Em 1999, ele publica “Bofes & Babados”. E aqui não tem ingenuidade. Nem dele, nem do país. O livro foi vendido como fofoca, mas o que ele fez foi botar luz em algo que o Brasil sempre escondeu: a hipocrisia que move desejo e violência ao mesmo tempo. Ele contou que viveu um relacionamento de sete anos com um jogador da Seleção Brasileira. Não deu o nome. Nunca daria. E essa decisão não foi covardia. Foi estratégia. Ele não queria destruir ninguém. Ele queria apontar para o que ninguém tinha coragem de dizer. Enquanto o país o condenava publicamente, no sigilo dos bastidores ele circulava com naturalidade no meio esportivo. Ele era querido entre os jogadores. Era respeitado como Jorge. Os mesmos homens que, diante das câmeras, performavam heterossexualidade rígida, bajulavam, abraçavam, convidavam, confidenciavam. O livro revela isso sem revelar nada. O país entendeu o recado.
Para completar a ironia, ele colocou fotos de Edmundo, Romário, Leonardo e Taffarel no livro. Não para acusar. Para provocar. Para obrigar o Brasil a lidar com a própria desonestidade moral. A lista de suspeitos funcionava como espelho. Quem tentasse reagir ficava com medo. Porque qualquer jogador que ousasse processá-lo teria que ouvir, perante um juiz, tudo o que Jorge guardou da vida privada de cada um. Ele sabia do peso disso. Usou a dúvida como arma e o silêncio como poder.
E o livro vendeu mais de 80 mil exemplares porque o país é exatamente do jeito que ele denunciou. Na frente, finge repulsa. Na frente, diz que é contra. Mas nos bastidores consome tudo o que diz condenar. É o mesmo país que mais mata pessoas trans e LGBTQIA+ e, ao mesmo tempo, lidera buscas pornográficas por essas mesmas identidades. Não é contradição. É hipocrisia. E Jorge Lafond escancarou isso em 1999, antes de existir rede social, antes de existir pauta política, antes de existir vocabulário para nomear o que ele estava apontando. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Publicitário? Sim. Vendia livro? Sim. Mas a operação era muito mais profunda. Ele organizou um ataque elegante à estrutura moral brasileira usando a própria curiosidade do público como isca. Ele jogou o país dentro de sua própria contradição. E deixou que o país se debatesse sozinho.
Na Praça é Nossa, o cenário era parecido. Carlos Alberto de Nóbrega tinha admiração sólida por ele. A equipe inteira convivia bem com Jorge. Ele conversava com todo mundo, percebia ambientes, aliviava tensões. Construía leveza. Era querido. Ele tinha amor ao redor. Ele só não tinha país.
Isso aparece com clareza nos últimos meses dele. Em novembro de 2002, durante a gravação do Domingo Legal, ordenaram que ele deixasse o palco porque o padre Marcelo Rossi iria se apresentar. A justificativa foi a roupa da personagem. Um detalhe que muita gente ignora, mas que pesa como sentença para quem entende o que significa trabalhar com o próprio corpo como ferramenta. Ele não estava brincando de ser Vera Verão. Ele estava cumprindo pauta. Ele estava a trabalho. Era o contrato dele. Era a função dele. E, num estúdio de televisão, ninguém vai com mala para trocar de papel de uma hora para outra. Ele mesmo disse depois que, se tivesse outra roupa, teria trocado. Ele sabia se adaptar. Ele era profissional. Ele conhecia bastidores. Sabia como funcionava a hierarquia de um programa ao vivo. Ele não era ingênuo. Era preparado. O problema não foi o pedido. O problema foi a forma. Tiraram ele do palco como se fosse inconveniente. Como se sua presença contaminasse o ambiente. Como se não pudesse dividir o mesmo espaço que uma figura religiosa que, teoricamente, prega acolhimento. E esse gesto, que parece pequeno para quem nunca viveu situação parecida, reconfigura a mente de quem passou a vida inteira tendo que provar que merece estar onde está. Humilhação não precisa de discurso. Basta a ordem. Basta o gesto. Basta o tratamento.
É importante registrar, no entanto, que o próprio padre Marcelo Rossi sempre negou ter feito qualquer exigência. Em entrevistas posteriores, afirmou que nem sabia quem estava no palco antes dele e que não pediu retirada alguma. Disse que só soube do episódio depois da morte de Lafond e atribuiu a decisão à produção do programa. E talvez isso seja ainda mais revelador sobre a estrutura que engoliu Jorge: muitas vezes, a violência não vem da figura visível, mas do mecanismo que administra o ambiente. A engrenagem toma decisões para preservar uma imagem que nunca foi neutra. O gesto não precisou vir do padre para ferir. Bastou existir.
As pessoas próximas a ele afirmam que essa situação desmontou Jorge. Ele perdeu o apetite poucos dias depois. Parou de comer. Emagreceu com rapidez. O humor sumiu. Ele se isolou nas gravações. Respondeu menos. Falava baixo. Não era frescura. Não era exagero. Era acúmulo. Era a última gota que ativa todas as outras dores que nunca foram embora. Ele internalizou o episódio como ruptura. Como se tivesse sido retirado do lugar que construiu. Como se sua presença não tivesse valor suficiente para dividir o palco com ninguém. O corpo dele já estava cansado. Depois daquele dia, ficou fragilizado de um jeito que ninguém conseguiu reverter.
A saúde desceu a ladeira com violência. Em pouco tempo, foi internado com crise renal. Necessitou de diálise. Sofreu um infarto.
Jorge partiu em 11 de janeiro de 2003, aos 50 anos.
O enterro contrariou a indiferença do sistema. Quase 200 mil pessoas passaram pelo Cemitério de Irajá. Ele foi sepultado conforme sua fé no Candomblé. Usava joias de ouro. Levava um saquinho de peças de ouro aos pés. Havia ritual, cuidado, dignidade.
Depois disso, veio a última violência. Anos mais tarde, amigos e o companheiro dele voltaram ao cemitério para localizar documentos e visitar o túmulo. Descobriram que a gaveta onde ele havia sido enterrado estava ocupada por outra pessoa. A ossada dele não estava lá. Isso não aconteceu de forma isolada. Tem origem em um problema administrativo antigo. O cemitério era administrado pela Santa Casa de Misericórdia, que acumulava registros incompletos e processos de exumação mal documentados. Em 2014, a administração passou para a empresa Rio Pax. Quando procurados, os novos responsáveis afirmaram que não receberam da gestão anterior nenhum documento que registrasse a remoção da ossada de Jorge. Nada. Nenhuma autorização familiar, nenhum protocolo, nenhuma indicação de onde os restos mortais teriam sido colocados. Entre a saída da Santa Casa e a chegada da Rio Pax, houve um apagamento. Não foi erro simples. Foi perda completa de registro. Quando questionada, a nova administração declarou que herdou o cemitério sem arquivos completos e que não poderia responder pelo que havia sido feito antes. As joias desapareceram. O saquinho de ouro desapareceu. O corpo desapareceu. O túmulo que existe hoje tem o nome dele, mas não há confirmação de que ali estejam seus restos. Não houve perícia. Não houve transparência. O país que falhou com ele em vida falhou também no pós-vida.
Jorge Lafond construiu carreira, abriu caminhos, formou público, deixou legado. O que faltou foi estrutura. O que faltou foi amparo. Ele ofereceu brilho e recebeu desgaste. Ainda assim, cada riso que provocou veio da força de alguém que aprendeu a transformar dor em linguagem. Contar essa história inteira é necessário. Não para santificá-lo, mas para garantir que a memória dele permaneça com a dignidade que lhe foi negada.
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