Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira




Confesso uma coisa que talvez eu devesse ter descoberto muito antes.

Eu não conhecia Raul Pompeia.

Foi um leitor aqui da página que me recomendou O Ateneu. Disse que eu provavelmente gostaria da leitura. Aceitei a sugestão sem imaginar que estava prestes a conhecer não apenas um dos maiores clássicos da literatura brasileira, mas também uma das histórias mais trágicas envolvendo um de nossos escritores.

Quem me acompanha há mais tempo sabe que, sempre que um livro me atravessa de verdade, eu gosto de trazê-lo para cá. Não para fazer uma resenha, mas porque algumas histórias continuam ecoando muito depois da última página. E essa foi uma delas.

Antes de qualquer coisa, fica a recomendação. Se você gosta de livros que continuam fazendo perguntas mesmo depois de terminarem, O Ateneu merece um lugar na sua estante.

Escrito por Raul Pompeia e publicado em 1888, o romance acompanha a chegada do jovem Sérgio a um renomado internato. À primeira vista, tudo parece impecável: disciplina, tradição, ensino de excelência. Mas basta atravessar aqueles portões para perceber que o colégio é apenas uma miniatura da sociedade. Ali existem disputas por poder, privilégios, favoritismos, humilhações, preconceitos e pessoas dispostas a destruir outras para preservar a própria posição. É um livro sobre a perda da inocência, mas também sobre aquilo que o ser humano é capaz de fazer quando a aparência vale mais do que o caráter.

Talvez tenha sido isso que mais me impressionou. Embora tenha sido escrito há quase 140 anos, em muitos momentos parecia que Raul Pompeia estava descrevendo o mundo de hoje.

Depois de fechar a última página, fiz o que sempre faço quando um autor desperta minha curiosidade.

Fui pesquisar quem era Raul Pompeia.

E descobri que a vida dele talvez fosse ainda mais dolorosa do que o livro que escreveu.

Antes de continuar, quero lhe fazer algumas perguntas.

Quanto da nossa vida depende da forma como os outros nos enxergam?

Uma reputação pode sobreviver quando muitas pessoas parecem decididas a destruí-la?

Existe um limite para a humilhação pública? Existe um ponto em que alguém simplesmente deixa de suportar?

Enquanto lia O Ateneu, imaginei que essas perguntas pertenciam apenas à ficção.

Eu estava completamente enganado.

Raul Pompeia nasceu em 1863. Inteligente, talentoso e dono de uma personalidade intensa, logo se destacou entre os escritores de sua geração. Era um homem de convicções fortes e de sensibilidade ainda maior. Para ele, uma ofensa nunca era apenas uma ofensa. Era uma ferida que demorava a cicatrizar.

Quando publicou O Ateneu, aos 25 anos, entrou definitivamente para a história da literatura brasileira. O romance foi celebrado pela crítica e rapidamente se tornou um clássico. Parecia apenas o começo de uma carreira brilhante.

Mas a vida resolveu escrever um enredo diferente.

O Brasil vivia os primeiros anos da República. A queda da monarquia ainda dividia opiniões, e o governo do marechal Floriano Peixoto incendiava o debate político. Raul Pompeia tornou-se um defensor apaixonado de Floriano. Hoje, a sensaçãonao mudou. Naquele tempo, porém, significava quase a o mesmo: romper amizades, colecionar desafetos e transformar jornais em arenas de combate.

Foi exatamente o que aconteceu.

As discussões deixaram de ser sobre ideias.

Passaram a atingir sua honra.

Antigos amigos tornaram-se inimigos. Entre eles estava Olavo Bilac, com quem rompeu de forma definitiva. Houve até um duelo marcado, que acabou cancelado. Enquanto isso, jornais publicavam artigos cada vez mais violentos. Seu caráter era questionado. Sua sanidade era colocada em dúvida. Sua reputação era atacada diariamente.

Quanto mais eu lia sobre sua vida, mais uma sensação estranha surgia.

Era como se O Ateneu deixasse de ser apenas um romance e se transformasse numa espécie de premonição...

Aquele internato retratado por Raul Pompeia era um lugar onde o poder, a vaidade e a necessidade de pertencer moldavam as relações humanas. Onde reputações eram construídas e destruídas. Onde a humilhação era usada como instrumento de controle.

Poucos anos depois, ele próprio passaria a viver tudo aquilo.

Dias antes do Natal de 1895, o jornalista Luís Murat publicou um artigo especialmente ofensivo no jornal O Comércio de São Paulo. Não criticava apenas suas ideias. Atacava sua honra, seu equilíbrio e sua dignidade.

Talvez, para quem estivesse lendo o jornal naquela manhã, fosse apenas mais uma polêmica entre intelectuais.

Para Raul Pompeia, parecia ser o fim de tudo.

Na manhã do dia 25 de dezembro de 1895, enquanto famílias se reuniam para celebrar o Natal, ele recolheu-se ao quarto da casa onde vivia com sua mãe, por quem tinha profunda afeição.

Pegou um papel e escreveu apenas uma frase:

"Ao público: A Pátria acusa minha honra; eu a deixo limpa. Ao jornal O Comércio."

Em seguida, disparou um tiro contra o próprio peito.

Tinha apenas 32 anos.

Desde que terminei essa história, uma pergunta não sai da minha cabeça.

Será que Raul Pompeia morreu apenas por causa de um artigo de jornal?

Acho que não.

Ninguém chega ao limite por causa de uma única palavra. O que destrói uma pessoa costuma ser o acúmulo. As pequenas humilhações. Os rompimentos. A sensação de estar sozinho. A impressão de que ninguém mais enxerga quem você realmente é.

Talvez aquele artigo tenha sido apenas a última gota de um copo que já estava transbordando havia muito tempo.

O mais triste é perceber que O Ateneu continua assustadoramente atual.

Os internatos mudaram de forma. Os jornais deram lugar às redes sociais. Mas a facilidade com que julgamos, humilhamos, isolamos e destruímos alguém continua praticamente a mesma.

Fechei o livro acreditando que havia encontrado apenas um dos maiores clássicos da literatura brasileira.

Descobri que também havia encontrado um espelho.

E, sinceramente, não tenho certeza se gostei do que ele refletiu sobre nós.

Por Fagner Oliveira

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