Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Eu sempre tive essa mania incômoda de achar que literatura não é refúgio, mas faca. Que boas histórias não servem para distrair, servem para cutucar. Talvez comece aí minha relação com Shakespeare. Não naquele lugar elitista onde o colocaram, o pedestal frio onde muita gente só conhece o nome e corre com medo de parecer burra, mas no lugar quente onde eu o encontrei. Entre as minhas inquietações. Entre noites em que o mundo parecia grande demais e eu procurava alguém que tivesse encarado essa estranheza antes de mim.
Porque eu era apenas um garoto enfiado no próprio universo. Livro numa mão e curiosidade demais para pouca vida vivida. Enquanto o bairro dormia, eu atravessava Veronas, florestas mágicas, becos mal iluminados e tavernas cheias de bêbados gritando filosofia sem ter consciência disso. Eu achava que estava apenas lendo Shakespeare. Hoje eu percebo que ele estava me lendo de volta.
William Shakespeare nasceu em 1564, em Stratford-upon-Avon, um lugar simples em uma Inglaterra que não tinha nada de romântica. Era um país de gordura queimando em fogão de ferro, ruas lamacentas, tapeçarias escondendo paredes frias, peste batendo à porta com a regularidade de um relógio macabro e um mundo que ainda não sabia onde terminava. Filho de um luveiro, sem nobreza, sem universidade, sem pedigree para grandeza. Tudo nele dizia destino modesto. Nada nele apontava para eternidade.
... é, eu aprendi cedo que o universo adora contrariar estatísticas.
Casou-se aos dezoito anos, e Anne Hathaway já estava grávida. Não foi romance cinematográfico, foi vida crua, urgente e humana. Existe uma frase atribuída a Shakespeare afirmando que uma vida só era pouca para amar Anne. Mesmo que não seja dele, eu acredito. Ele entendeu o amor como quem já viveu dores que o mundo inteiro ainda aprenderia a nomear... E olha a ironia do destino: hoje existe uma atriz chamada Anne Hathaway casada com um homem incrivelmente parecido com Shakespeare. Coincidência ou eco do tempo? Bem, eu gosto de imaginar que algumas histórias se recusam a morrer.
Vieram então os anos perdidos. O silêncio biográfico. A parte da vida dele em que Shakespeare desaparece. Fugiu? Se escondeu de dívidas? Trabalhou em estábulos de teatro? Viajou com trupes? Sofreu? Aprendeu? Ou simplesmente precisou sumir para nascer de novo? A vida raramente caminha em linha reta. Às vezes a gente precisa desaparecer para poder voltar sendo outro.
Quando reaparece, está em Londres, ator mediano, escritor faminto. O teatro da época não era luxo, era tumulto. A plateia gritava, comia, bebia, comentava, vaiava,cuspia, chorava. Era o caos perfeito para alguém que entendia que o ser humano é espetáculo e espelho ao mesmo tempo. Enquanto a peste rondava as esquinas e a morte atravessava as ruas como notícia comum, Shakespeare costurava mundo em palavras.
Li Sonhos de Uma Noite de Verão e senti o chão virar floresta, o desejo virar magia e a confusão virar poesia. Gente amando errado, mas amando com tudo. Depois mergulhei em As Alegres Senhoras de Windsor e enxerguei ali a malícia divertida do cotidiano, a fofoca que expõe ego, a astúcia feminina, o riso que nasce do desmascaramento. Shakespeare sabia rir dos poderosos e dos tolos, e tinha coragem de mostrar que muitas vezes eram a mesma pessoa. E quando cheguei em Romeu e Julieta, percebi que romantizar tragédia é só falta de leitura. Ali não há conto de fadas, mas alerta de incêndio emocional. Amor jovem é pólvora e perfume misturados. Belo e perigoso na mesma proporção...
Shakespeare não inventou personagens. Ele arrancou a máscara das pessoas. Ele escreveu humanidade nua. Gente que ama errado, odeia rápido, sente medo de si mesma, sonha grande demais para o corpo que carrega. Todo ser humano vive a centímetros entre a grandeza e o ridículo. Ele sabia, e nos mostrou sem dó.
E a vida dele seguia esse mesmo teatro. Não era santo. Era astuto, ambicioso, comerciante do próprio talento. Investiu em imóveis, processou gente, administrou teatro, enfrentou censura e inveja. Genialidade não é pureza. Genialidade é teimosia com fome. E meio disso tudo, Shakespeare e Anne mantiveram um casamento feito de distância, fé e espera. Ele vivia a pulsação de Londres, ela a calma de Stratford. Duas casas, uma vida só. Às vezes amor é ponte. E pontes tremem, mas sustentam.
A Inglaterra vivia guerras, conspirações, exploração marítima, perseguições religiosas e epidemias. Shakespeare escrevia para esse mundo e sobre ele. Reis enlouquecendo por poder, pais aprendendo tarde que amor não se exige, príncipes paralisados pelo próprio pensamento. Hamlet não é apenas dúvida, é o retrato eterno de quem pensa demais em um mundo que sente de menos.
Quando a peste fechava teatros, ele escrevia. Transformava o silêncio em tempestade emocional. Quando o mundo calava, ele articulava. E nos intervalos desse caos, retornava para Anne. Foi pai, foi marido à distância, foi presença e ausência, foi desejo e saudade. Um filho morreu cedo. A vida nunca poupou Shakespeare do mundo real enquanto ele transformava o mundo interno de todos nós.
Quando cansou, voltou para Stratford. Comprou casa grande, cuidou dos seus, escreveu menos, viveu mais perto do chão e do amor que escolheu quando ainda era menino. Morreu aos 52 anos. Pediu para seus ossos não serem movidos. Anne foi enterrada ao lado dele. Uma vida só foi pouca. A eternidade fez o favor.
E então surge o rumor irresistível. Talvez ele não tenha existido. Talvez tenha sido outro. Talvez grupo de autores. Talvez máscara. Gênios sempre atraem teorias porque é doloroso admitir que um “ninguém” pode tocar o eterno. Questionar a existência dele é o maior elogio possível. Só duvidam daquilo que assusta.
Hoje, quando falam de Shakespeare como senha de intelectualidade, eu sorrio. Porque ele não é para pedestais. Ele é carne crua. É faca. É sangue quente, falha, brilho, pecado, glória e queda. É o retrato mais honesto da alma humana que já pisou no papel.
Quando lia Shakespeare, sentia que alguém abria minha cabeça por dentro. Todo amor que dói, ele já viveu. Todo medo que paralisa, ele já disse antes de mim. Toda vergonha, toda esperança, toda sensação de ser pequeno demais para o próprio coração, ele já colocou no palco e me obrigou a olhar.
E talvez seja isso que me prende a ele. A pureza da verdade. O mundo muda de roupa, muda de governo, muda de tela, mas as emoções continuam as mesmas.
O palco muda. A peça, não.
Shakespeare me ensinou que viver é ser ridículo e sublime ao mesmo tempo. Que amar alguém a ponto de acreditar que uma vida só é pouca é um dos gesto mais humano sincero que existe. Que somos tragédia e comédia misturadas, sempre. E quando fechava o livro, e olhava para o teto do meu quarto, pensava (e ainda penso) que no fim somos todos personagens tentando lembrar o próprio texto. Talvez a grande arte não seja entender Shakespeare, mas aceitar que Shakespeare entendeu a gente primeiro.
... e, de fato, entendeu muti bem.
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