O FURTO DA CUECA- UMA ABORDAGEM SEMÂNTICA




A música brasileira está repleta de autores que são legítimos tradutores da nossa alma popular. Não apenas a pensadora Waleska Popozuda merece penetrar neste panteão e constar, merecidamente, dos currículos escolares.


Muitos outros compositores, representam as raízes poéticas mais profundamente fincadas nas nossas camadas populares e merecem estudos e interpretações à luz de uma hermenêutica heterodoxa, que busque as nuances sócio-culturais e estéticas de suas criações.

Abordaremos hoje uma obra de grande penetração popular, que está há décadas na boca e no imaginário do nosso povo, independente do nível cultural ou da extração sociail. Trata-se da popular “ Marcha da Cueca”, dos imortais Carlos Mendes, Livardo Alves e Sardinho.. Tomemos a primeira estrofe de seus versos inesquecíveis:

Eu mato ! eu mato !

Quem roubou minha cueca

Prá fazer pano de prato

De plano, constatamos que os autores, através de uma exclamação hiperbólica, potencializada pela repetição, manifestam, já no primeiro verso, uma indignação exacerbada ao máximo. uma ameaça de morte! Bem verdade que é lugar comum na dialética popular corrente manifestar desejos homicidas, como força de expressão, forma de enfatizar o descontentamento com algum ato ou atitude do próximo. É um recurso semiótico eficaz, que transmite de imediato um gradação amplificada do sentimento. Este início, portanto, revela grande poder de síntese e uma precisa sinestesia entre, forma, verbo e intenção.

O segundo verso tem sutis significados, na sua direta simplicidade. "Quem roubou minha cueca?" Indaga o personagem/cantor criado pelos bardos. Não se trata, vejam bem, de um furto comum, mas, sobretudo, de um ultraje à privacidade, eis que o delito direcionou-se ao recôndito da intimidade do intérprete. Ao furtar a peça mais intima da indumentária o larápio, mais do que um crime contra o patrimônio, profana o “id” mais profundo (ou protuberante depende do ângulo de visão) da masculinidade. Observe-se que, neste diapasão, este segundo verso inicia uma processo justificativo para a veemência homicida revelada no primeiro, e que será ratificado nos seguintes. Enfim, trata-se uma escusa que perpassa por toda a composição carnavalesca.

O terceiro verso é, talvez, o mais interessante da obra. O personagem criado pelos autores nos revela, usando uma criativa alusão transversa, que sabe perfeitamente quem lhe subtraiu a cueca. E mais: tem conhecimento do destino que foi dado à peça surrupiada. Foi transformada em pano de prato.

Tal fato, prima facie, induz à conclusão que teria sido uma mulher a agente do delito. Não podemos perder de vista, de forma alguma, o contexto sócio-econômico- cultural da época.Trata-se de uma popular marchinha, escrita nos alvores da década de sessenta, numa sociedade de valores machistas absolutos. Portanto, este transporte de uma peça intima do vestuário masculino mais privado para o universo feminino ( a cozinha), e, ainda por cima , como utilitário de uma atividade subalterna (secar pratos) é degradante. Isto assume, numa ótica temporal, uma gravidade absoluta e imperdoável.

Estes fatores robustecem por inteiro a justificativa para a ira homicida anunciada de início. Não há perdão possível para tal transgressão, seria de senso comum para os valores sociais então vigentes.

A segunda estrofe nos traz razões acessórias da ira. Os motivos determinantes, já vimos, estão na primeira. Mas, vamos a esta outra:

Minha cueca tava lavada

Foi um presente

Que eu ganhei da namorada

A cueca estava recém lavada. Não fora assim, não haveria necessidade desta alusão. Fica insinuado, inclusive, que estaria no varal a secar, O que confere ao furto certa ignomínia oportunista. Além de tudo, não bastasse tudo, a peça intima era um presente recebido da namorada. Isto inclui no contexto da indignação que perpassa pela obra um elemento afetivo. Mais que isto, sugere (para a época, convém não olvidar), um namoro de escandalosa intimidade, só revelada por força do acontecido, conferindo à marchinha uma pitada de malicia, indispensável ao gênero.

Como é possível concluir, trata-se de uma a mensagem sintética e precisa, que emerge do aparentemente despretensioso universo das marchinhas de salão, que muito nos revela sobre os costumes e as relações interpessoais da época em que foi composta. Isto é arte popular. O resto é preconceito pequeno-burguês. Como diria Glauber.

i.c.


Fonte: Perfil do facebook de Ivan Carvalho - Cronista

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