Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Eu definitivamente não gosto de falar de pessoas vivas. Eu sei que é um traço tóxico da minha personalidade, mas falar de pessoas vivas envolve sempre o risco do julgamento de quem lê. E como eu escrevo pro coração, faço crônica biográfica, me sinto mais confortável falando de quem já não está aqui, de quem não pode mais falar por si. Escrever sobre uma vida em andamento é sempre escorregar em juízo de valor, tentar organizar o outro a partir das nossas próprias lentes.
E recentemente, com o alcance monstruoso que minhas publicações estão tendo, eu me sinto ainda mais empenhado em não cometer erros, em ser verdadeiro, em não escorregar em egos ou vaidades, principalmente quando se trata de informação. Eu não sou um acadêmico, eu escrevo por paixão. Conferir todas as fontes ainda é algo que estou aprendendo a fazer melhor, dia após dia.
Ainda assim, com todos esses cuidados, havia exceções.
Dona Laura Cardoso era uma delas.
Talvez porque minha relação com ela nunca tenha sido de contemporaneidade, mas de permanência. Eu a assistia desde menino. Dona Laura sempre esteve ali, antes mesmo de eu entender o que era atuação. E, por isso, quando escrevi sobre ela pela primeira vez, ainda em vida, comecei dizendo que aquele texto só existia porque ela era uma exceção.
Hoje, preciso começar de outro lugar.
Porque dona Laura morreu.
E escrever isso ainda parece estranho.
Laurinda de Jesus Cardoso nasceu em 13 de setembro de 1927, na rua da Abolição, no Bixiga, em São Paulo. Filha de imigrantes portugueses, Adriano Cardoso e Carolina de Jesus Cardoso, cresceu em uma família que encontrou no Brasil a possibilidade de construir uma vida melhor. O pai, embora camponês, era um homem apaixonado por livros. Foi com ele que Laura aprendeu a amar a leitura.
E talvez esteja aí uma das primeiras pistas da atriz que ela se tornaria.
Ela gostava de ler. Gostava de recitar. Gostava de representar.
Ainda menina, lia para as colegas na escola e participava das atividades de leitura. Aos quinze anos, tomou coragem, foi até uma rádio em São Paulo e pediu uma oportunidade. Fez um teste, foi aprovada e começou uma carreira que atravessaria mais de oito décadas.
O que veio depois parece exagero quando colocado no papel.
Rádio. Teatro. Cinema. Televisão. Teleteatro. Radionovela. Dublagem. Mais de cem personagens. Mais de seis décadas de televisão. Prêmios. Novelas que se tornaram parte da memória afetiva do país. Personagens que continuaram vivos muito depois que as novelas terminaram.
Laura Cardoso atravessou diferentes épocas da dramaturgia brasileira sem jamais parecer pertencer a apenas uma delas.
Começou no rádio. Chegou à televisão nos anos 1950, quando a televisão brasileira ainda estava aprendendo a existir. Trabalhou na TV Tupi, na Record, voltou à Tupi e, em 1981, chegou à Globo.
Mas o mais impressionante talvez não seja a quantidade.
É a maneira como ela tratava o ofício.
Dona Laura dizia: “Tem de dar importância e valor ao personagem e ao texto que te dão. Não existe isso de ser a estrela da novela.”
É uma frase que resume muito daquilo que ela representava.
Ela não precisava ser a protagonista para dominar uma cena.
Não precisava de um personagem enorme para fazer dele algo inesquecível.
Laura Cardoso tinha aquela capacidade rara de entrar em uma história e, de algum modo, fazer com que a história passasse a carregar um pouco dela.
Foi Dona Ana, em Por Amor.
Foi Lakshmi, em Caminho das Índias.
Foi Dona Sinhá, em Sol Nascente.
Foi Dona Doroteia, foi Vó Carmem, foi tantas outras que seria injusto tentar resumir uma carreira desse tamanho a meia dúzia de personagens.
No teatro, conquistou dois prêmios Shell de melhor atriz. No cinema, participou de mais de trinta produções e recebeu importantes reconhecimentos. Na televisão, tornou-se uma das maiores referências da dramaturgia brasileira.
Mas existe uma coisa que me interessa ainda mais.
Laura Cardoso continuou trabalhando porque continuava amando trabalhar.
Aos 98 anos, ainda falava da profissão com o entusiasmo de quem tinha acabado de descobrir aquilo tudo.
Ela dizia: “A paixão por representar me motiva a levantar da cama todos os dias.”
Talvez seja por isso que a morte dela tenha causado essa sensação estranha de que alguma coisa muito antiga acabou.
Porque Laura não era apenas uma atriz que nós conhecíamos.
Ela fazia parte da paisagem.
Estava ali antes de muita coisa que hoje parece eterna existir.
Quando ela começou no rádio, a televisão brasileira ainda nem havia sido inaugurada. Quando chegou à TV Tupi, o Brasil estava descobrindo o que significava assistir a uma história dentro de casa. Quando entrou na Globo, em 1981, já carregava décadas de experiência.
E continuou.
Continuou quando a televisão mudou.
Quando o país mudou.
Quando o jeito de fazer novela mudou.
Quando o público mudou.
Laura Cardoso permaneceu.
Até que ontem, 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, ela morreu em São Paulo.
E talvez exista uma certa beleza no fato de que, depois de uma vida inteira interpretando personagens, construindo histórias e emprestando sua presença a tantas vidas fictícias, agora seja a nossa vez de contar a história dela.
Dona Laura, eu escrevi sobre você quando você ainda estava aqui porque não consegui resistir à exceção que você representava.
Hoje escrevo porque você se foi.
E talvez esta seja a parte mais difícil.
Porque eu sempre gostei de escrever sobre quem já não podia mais responder. Mas, no seu caso, durante muito tempo eu tive a sensação de que você estaria por aí, em algum lugar, lendo.
Agora não está.
Ficou o trabalho.
Ficaram os personagens.
Ficaram as entrevistas, as fotografias, as gravações, as histórias e aquela voz que atravessou gerações.
E ficou também uma coisa que nenhuma morte consegue levar embora: a memória de quem fez arte com seriedade suficiente para permanecer.
Dona Laura, obrigado.
Obrigado por ter chegado antes de nós e permanecido tempo suficiente para nos acompanhar.
Obrigado pelas histórias.
Obrigado pelos personagens.
Obrigado por nos ensinar, sem precisar ensinar, que uma carreira pode atravessar oito décadas sem perder a paixão pelo primeiro dia.
Hoje eu não posso mais dizer “Viva Laura Cardoso”.
Então digo outra coisa.
Laura Cardoso vive.
Enquanto alguém assistir a uma de suas cenas, lembrar de uma personagem, ouvir seu nome ou simplesmente contar para outra pessoa quem foi aquela mulher que começou no rádio e atravessou a história da televisão brasileira, ela continuará aqui.
E algumas pessoas, afinal, não vão embora completamente.
Elas apenas deixam de estar presentes para começar a fazer parte da memória.
Descanse, dona Laura.
E obrigado pelo seu excelente trabalho.
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