Crônica da Atualidade - Por Leila Cordeiro
A música não passa por nós.
Ela fica.
Fica guardada em algum lugar entre o coração e a memória, como se soubesse exatamente onde se esconder para não se perder com o tempo. Certas canções não são apenas sons , são chaves. Abrem portas que acreditávamos trancadas, revelam paisagens internas que continuam intactas, mesmo depois de tantos anos.
Uma música toca, e de repente voltamos. Não ao passado em si, mas à pessoa que éramos quando aquela melodia nos atravessou pela primeira vez. O cheiro do ambiente, a luz do dia, o peso ou a leveza do momento. Tudo retorna junto, sem pedir licença. Porque a música sabe o caminho.
Há canções que chegam quando estamos frágeis, apaixonados, inteiros ou partidos. E é nesse instante de abertura que elas se fixam. Tornam-se testemunhas silenciosas de quem fomos, de quem amamos, de quem perdemos, de quem sobrevivemos. Por isso doem. Por isso acolhem. Por isso curam.
A música tem o dom de dizer o que não conseguimos formular. Ela traduz sentimentos confusos, dá nome ao indizível, sustenta o choro quando as palavras falham. Às vezes, é abrigo. Outras, espelho. Em certos momentos, é despedida. Em outros, promessa de recomeço.
Curioso é perceber que as canções também mudam conosco. Aquela que um dia rasgou o peito pode, anos depois, tocar sem ferir. A que embalou um amor intenso pode se transformar em lembrança serena. Algumas permanecem vivas no presente; outras ficam presas a uma versão antiga de nós e talvez seja por isso que emocionem tanto.
No fim, cada vida carrega sua própria trilha sonora. Invisível, íntima, sagrada. Feita de encontros e ausências, de alegria e silêncio, de quedas e renascimentos.
A música não envelhece como o tempo.
Ela espera.
E quando volta a tocar, não nos encontra onde estamos,
mas exatamente onde ainda somos. 💫🎶
( 🦋 © Leila Cordeiro – Todos os direitos reservados)
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