Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira

 


Esquecimento.

Uma palavra que carrega em cada letra um tipo específico de desânimo. O esquecimento não faz alarde, não entra arrombando portas. Ele chega devagar, senta num canto da sala, cruza as pernas e observa se alguém vai notar sua presença. Com Sandra Bréa foi assim. Uma das atrizes mais impactantes da minha adolescência. Linda, exuberante, mulher fatal no sentido mais clássico da expressão. Ainda assim, nem ela escapou. O país seguiu. E quando seguiu, não fez barulho algum.

Sandra Bréa nasceu no Rio de Janeiro em 11 de maio de 1952, no bairro de Jacarepaguá, quando ainda era possível crescer imaginando a própria vida e sonhando que ela pudesse virar assunto público. A infância foi relativamente curta. Não houve tragédia ali. Houve vocação. Aos treze anos, enquanto outras meninas aprendiam a habitar o corpo com hesitação, Sandra já o colocava em disciplina. Balé clássico, dança moderna, ensaios longos, espelhos que não perdoam. O corpo sempre ali, medido na régua. Aliás, o corpo foi o primeiro instrumento e também o primeiro preço. Antes dos quinze anos, já trabalhava profissionalmente. Antes dos dezoito, sustentava a própria família. Tornou-se adulta cedo demais. Não por escolha estética. Por urgência. Quando o talento chama, ele não costuma pedir licença.

O teatro de revista foi o primeiro território conquistado. E aqui vale uma pausa. Teatro de revista era um gênero exigente, musical, satírico, sofisticado. Misturava humor político, dança, canto, precisão corporal e tempo de comédia. Quem sobrevivia ali aprendia tudo o que uma atriz precisava saber para dominar um palco. Foi nesse ambiente que Sandra aprendeu a diferença entre ocupar espaço e comandá-lo.

Aos quinze anos, ainda adolescente, já brilhava nas revistas musicais comandadas por Carlos Machado no Copacabana Palace, em espetáculos como Deu Pra Ti e Rio. Carlos Machado foi o grande arquiteto da noite carioca, o homem que moldou o entretenimento de luxo no Rio entre as décadas de 1950 e 1970. Criador de estrelas, organizador de espetáculos, alguém que entendia imagem, impacto e tempo de cena como poucos. Machado olhou para Sandra e entendeu rapidamente que aquela menina não cabia nos moldes antigos da vedete. A vedete clássica era exuberante, central, muitas vezes estática, ornamentada. Sandra era movimento. Frescor. Uma sensualidade que não dependia do excesso. Menos pluma, mais presença. Menos pose, mais verdade corporal.

Anos depois, já em 1970, Sandra integraria a montagem de Pobre Menina Rica, de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, quando sua imagem de estrela moderna já estava plenamente formada. Ali, ela já não era promessa. Era linguagem.

Enquanto o Rio fervilhava entre a bossa nova, o cinema novo e uma ideia difusa de liberdade, Sandra tornou-se o rosto de uma juventude que não pedia licença. E quando digo isso, não é força de expressão. Era o Rio do rádio ligado até tarde, do cinema de arte, da televisão ainda artesanal, das conversas atravessadas por música, política e desejo de mundo. Ipanema, Copacabana, os bastidores da noite e do palco. Sandra absorvia tudo com uma disciplina que poucos percebiam. O mito da beleza espontânea nunca deu conta do rigor com que ela trabalhava. Ela estudava. Ensaiava. Pensava personagem. Num ambiente que muitas vezes confundia talento com ornamento, ela insistia em ser atriz.

A televisão veio cedo e veio grande. Em 1970, aos dezoito anos, estreou na TV Globo em Assim na Terra Como no Céu, de Dias Gomes. Entrou pela porta da frente. Foi lançada no elenco principal como Babi, numa trama de enorme sucesso. Havia um brilho que a câmera reconhecia de imediato. Nos bastidores, corria o comentário de que sua beleza intimidava veteranas. Na tela, o que se via era mais complexo. Sandra ocupava o espaço com naturalidade, sem pedir desculpas por existir. Firme, segura. Quem assistia sentia isso atravessar a tela. Era impossível não admirá-la.

O Brasil inteiro a conheceu em 1973, quando interpretou Telma em O Bem-Amado. Filha de Odorico Paraguaçu, contracenou com Paulo Gracindo e Lima Duarte sem jamais desaparecer ao lado deles. Pelo contrário. Elevava-se ao mesmo patamar. Telma era moderna, irônica, vestia roupas que viravam moda no dia seguinte. O país aprendeu a imitá-la sem perceber que imitava também uma forma de estar no mundo.

No ano seguinte, em Corrida do Ouro, como Isadora, consolidou-se como a mulher mais bonita do Brasil. Título feio. Redutor. Mas carregado de um poder simbólico imenso. Sandra passou a ditar cabelo, maquiagem, comportamento. E é curioso escrever isso hoje: ela já era uma it girl muito antes de a palavra existir.

A década de 1970 terminou com Sandra no auge. Apresentou o Globo de Ouro, selando a imagem de diva nacional. Em 1985, nos anos 1980, veio Jacqueline, em Ti-Ti-Ti. Personagem inesquecível. Um de seus maiores marcos de popularidade, estilo e inteligência cênica. Atriz solar da praia, mulher independente, intérprete capaz de fazer rir e emocionar no mesmo capítulo. Uma presença indomável. Escrevo isso lembrando e, ao mesmo tempo, pensando em como a esquecemos.

A vida íntima nunca foi simples. Casou-se três vezes. Eduardo Conde, ator e cantor, no auge da exposição pública. Arthur Guarisse, economista, numa tentativa de vida mais estável. José Inácio de Moraes, o companheiro dos últimos anos, quando o entorno começava a rarear. Não foram romances decorativos. Foram tentativas reais de afeto numa vida atravessada por trabalho, vigilância e cobrança constante. Houve também o filho, Alexandre Bréa Brito, adotado ainda recém-nascido. Amor, conflitos, distâncias. Nada disso foge à regra humana.

Em 1979, um episódio marcaria sua relação com a imprensa de forma irreversível. Uma briga envolvendo um taxista, amplamente explorada pela mídia, gerou acusações, versões distorcidas e a primeira grande virada de humor do país em relação a ela. Foi ali que Sandra aprendeu como a admiração pode ser substituída pelo julgamento com assustadora rapidez.

Em 1990, um grave acidente de carro abalou sua autoconfiança estética e física. Anos depois, familiares e biógrafos sugeririam que foi após esse episódio, possivelmente por transfusão de sangue, que ocorreu a infecção pelo HIV. Sandra nunca quis que isso fosse bandeira. O foco sempre foi viver.

Em agosto de 1993, ela falou. Disse que tinha o vírus. Disse que não estava morrendo. Disse que viveria cem anos. Falou para humanizar. Pagou caro. Transformou a dor em militância, fundou a ONG Pela Vidda, visitou hospitais, abraçou doentes sem luvas, pressionou por medicamentos. Mostrou ao país que o HIV não tinha rosto único. O impacto foi enorme. O preço, maior ainda.

Depois disso, o telefone começou a falhar. Não de uma vez. Primeiro espaçado. Depois, mudo. A TV não a demitiu. Os autores simplesmente pararam de escrever. Convites cessaram. Amigos desapareceram. Sandra recolheu-se ao sítio em Jacarepaguá. Um corpo que havia sustentado o país inteiro passou a sustentar apenas a própria existência. Animais, poucos familiares, uma rotina fora do enquadramento. Seguiu os coquetéis disponíveis, agressivos, orgulhosa de manter a imunidade alta.

Em dezembro de 1999, veio o câncer de pulmão. Após a morte do marido, José Inácio de Moraes. Sandra recusou a quimioterapia. Seguiu com cuidados paliativos. Escolheu como morreria. Faleceu em 4 de maio de 2000, aos 47 anos, no Hospital Barra D’Or.

Depois da morte, a vida não se organizou.

E isso também importa dizer.

O velório reuniu fãs, colegas, arrependimentos tardios. Em seguida, veio o abandono organizado. O sítio em Jacarepaguá, joias, obras de arte, figurinos, fotografias, prêmios. Um acervo que, em qualquer país minimamente atento à própria cultura, teria sido preservado. Aqui, virou problema. Brigas judiciais, descuido, desaparecimentos. A memória material de Sandra se dissolveu aos poucos.

Alexandre herdou tudo isso. Herdou bens, mas também herdou um peso impossível de administrar sozinho. Problemas financeiros, disputas, isolamento. Em 2011, desapareceu. Simples assim. Durante anos, não se soube onde estava. Anos depois, veio a confirmação. Alexandre foi encontrado morto, enterrado como indigente, identificado apenas posteriormente. Com ele, extinguiu-se a linhagem direta de uma das atrizes mais importantes da televisão brasileira.

Hoje, Sandra Bréa é redescoberta em catálogos de streaming, citada em congressos, lembrada em textos como este. Separaram a atriz da doença. Tarde. Mas necessário.

A história de Sandra Bréa dói porque revela mais sobre o país do que sobre ela. Um país que celebra enquanto convém, que se afasta quando o brilho exige coragem, que resgata na morte aquilo que abandonou em vida.

A dignidade dela permanece.

O país ainda deve.

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