Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Eu me lembro nitidamente da primeira vez em que ouvi Elza Soares. Eu devia ter uns oito, talvez nove anos, e o mundo ainda era pequeno demais para tanta grandiosidade. A música era Se Acaso Você Chegasse. Sei disso, porque minha irmã mais velha adorava essa música. Tínhamos o hábito de gravar as músicas da rádio nelas (Uma história parte). Mas consigo lembrar, perfeitamente, o arranjo que vinha vivo, cheio de metais que pareciam anunciar alguma coisa importante, e de repente a voz dela surgia, vibrante, rasgada, inconfundível, como se tivesse atravessado décadas só para chegar até mim naquela sala apertadinha da casa de meus pais. É estranho como a vida se dobra quando a gente encontra pela primeira vez uma força tão grande, tão indomável. E mesmo tão jovem, eu entendi que tem gente que não passa pela nossa vida, atravessa a nossa própria percepção e muda a maneira como ouvimos o tempo.
A história de Elza Soares começa num berço onde quase nada era promessa, mas tudo era luta. Nasceu em 23 de junho de 1930, no Rio de Janeiro, filha de uma lavadeira e de um operário. Cresceu numa casa onde a pobreza não era exceção, era regra. Ainda menina, descobriu que a vida tinha vontade própria e não esperava ninguém amadurecer para começar a cobrar. Casou obrigada aos doze anos, engravidou na adolescência, chorou filhos que morreram cedo demais e sustentou outros com o que tivesse à mão. A infância dela não foi exatamente um capítulo, foi um soco na boca do estômago. E ainda assim, de algum modo impossível, ela transformou cada golpe em músculo e cada nó na garganta em afinação. Não querendo romantizar essa vida, mas como quem escreve, eu preciso explicar o que não se entende.
Mesmo cercada por desastres, Elza sempre pareceu caminhar com a música dentro do peito, como quem carrega um tambor secreto no lugar do coração.
Em 1953, quase sem alternativas, ela decidiu participar do programa de Ary Barroso. A história costuma glamurizar esse momento, mas a verdade é que não havia glamour algum. Elza chegou ao auditório com um vestido humilde, surrado, gasto pelo tempo e pela vida dura. O cabelo preso como dava, sem produção, sem maquiagem, sem promessa. Aquela não era uma jovem artista em ascensão. Era uma moça que carregava a fome nos ossos e a necessidade na garganta. Barroso perguntou de que planeta ela vinha. Havia naquela pergunta a malícia confortável de quem fala do alto para quem está embaixo, como se a pobreza fosse um tipo de exotismo digno de espetáculo. E ela respondeu com a sinceridade de quem não podia mentir nem que quisesse: do planeta fome. Não foi metáfora. Não foi frase de efeito. Foi a descrição exata da realidade de alguém que subia ao palco sem nada além da própria voz. E quando ela cantou, o que aconteceu ali não foi descoberta de talento. Foi sobrevivência transformada em som. E é curioso como, mesmo quando nada lhe pertencia, parecia haver uma força empurrando Elza para onde ela jamais imaginou estar; como se o acaso tivesse um pacto antigo com o destino, sussurrando que, para algumas pessoas, a fama não é conquista, é convocação.
O sucesso veio, mas não trouxe alívio. Trouxe exposição. Nos anos 1960, o país tinha descoberto o mito do jogador perfeito, Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas, o improvável que driblava até as leis da física. E foi na interseção entre a voz mais rasgada do samba e o corpo mais impossível do futebol que nasceu uma das histórias de amor mais odiadas e mais incompreendidas do Brasil. Era como juntar fogo e vento. Era como colocar duas tempestades para dividir o mesmo teto.
Quando Elza e Garrincha se apaixonaram, o Brasil não estava preparado para ver uma mulher preta, dona de si, talentosa, sobrevivente, ocupar o lugar que a sociedade achava que não era dela. A imprensa tratou o relacionamento como escândalo nacional. Inventaram manchetes, criaram vilões, elegeram culpada. E Elza virou alvo de uma fúria coletiva que vinha menos da moralidade e mais do racismo entranhado na formação do país. Disseram que ela destruiu uma família, que ela tinha tirado o homem de casa, que era uma feiticeira que enfeitiçara o ídolo. Como se homens não escolhessem. Como se Garrincha não fosse um adulto. Como se o problema fosse ela existir. Era o velho Brasil mostrando que sempre esteve disposto a apedrejar uma mulher para preservar um mito.
A perseguição foi tanta que deixou marcas literais. Elza foi apedrejada ao chegar ao Maracanã. Uma multidão a recebeu com pedras, xingamentos, cuspes e o tipo de ódio que só aparece quando uma mulher rompe uma regra que nunca escreveu, mas sempre foi obrigada a seguir. A mesma multidão que aplaudia sua voz no rádio se transformava em tribunal na vida real. O amor dela virou espetáculo, e ela, ré. E é curioso como o país que dança ao som de uma mulher preta é o mesmo que tenta silenciá-la quando ela ama.
Por trás das manchetes, havia duas pessoas tentando sobreviver. Garrincha já carregava uma luta silenciosa contra o alcoolismo que o destruía por dentro e por fora. Elza viu o ídolo se desmontar dia após dia, enquanto o Brasil assistia sem piedade. Ela tentou segurá-lo pela mão todas as vezes, tentou salvá-lo sempre que ele ainda queria ser salvo, tentou proteger a família, tentou proteger os filhos, tentou proteger o homem que amava. E tudo isso enquanto o país inteiro a chamava de culpada. Era uma espécie de crucificação pública, e ela cantava para não morrer.
Quando Garrincha morreu em 1983, Elza ficou com a sensação de que parte dela tinha sido enterrada junto. Três anos depois, em 1986, o filho deles, Garrinchinha, morreu em um acidente de carro. Foi como se o destino insistisse em lembrá-la que nenhuma alegria sua durava intacta. Mas a história de Elza nunca foi sobre a queda. Foi sobre o que ela fazia depois dela. E o que ela fez foi se reinventar, como quem transforma a própria dor em matéria-prima para continuar existindo.
Nos anos seguintes, Elza enfrentou um período de ostracismo. O Brasil que já a havia crucificado como vilã voltou a virar o rosto. A indústria fonográfica não sabia o que fazer com uma mulher negra que envelhecia sem pedir permissão. Os palcos diminuíram, os contratos rarearam, o dinheiro ficou curto, mas a voz permaneceu inteira. Elza cantava em casas menores, em projetos esquecidos, em palcos improvisados, mas cantava como quem afirma a própria existência. Era a beleza que não pede licença. Era a sobrevivência fazendo harmonia.
A partir dos anos 1990, uma nova geração começou a reencontrá-la. Os jovens que cresceram com as feridas do país aberto descobriram que aquela mulher preta, sobrevivente, de voz rasgada, era uma síntese de tudo o que o Brasil tentou esconder. Aos poucos, críticos e músicos entenderam o óbvio: Elza era vanguarda desde sempre. E, como toda vanguarda, tinha sido subestimada. O tempo finalmente alcançou a mulher que sempre esteve adiante dele.
Foi então que veio a virada definitiva. Em 2002, lançou Do cóccix até o pescoço, um título que já avisava que ela não pretendia recuar. Em 2015, entregou ao mundo A mulher do fim do mundo, não como quem lança um disco, mas como quem abre uma ferida ancestral. Ela cantava sobre racismo, violência doméstica, apagamento, revolta, desejo, sobrevivência. O álbum se tornou um manifesto, um terremoto cultural que reintroduziu Elza ao país como a artista mais relevante de sua geração. E ela já tinha oitenta e cinco anos. É como se o Brasil só conseguisse compreender Elza quando finalmente aprendeu a olhar para a própria dor.
Nos anos seguintes, Elza assumiu o papel de oráculo do Brasil. Era chamada para falar do que dói, do que mata, do que insiste em sobreviver. Tornou-se uma presença mítica, respeitada pelos mesmos que antes a apedrejaram. Participou de festivais gigantes, gravou com músicos de todas as idades, virou símbolo feminista, símbolo negro, símbolo de resistência. Quando abria a boca, não cantava apenas notas, cantava séculos. Era como ouvir a história gritando de volta.
Os seus últimos anos foram de triunfo. Elza viveu o raro privilégio de receber em vida o reconhecimento que sempre mereceu. Era reverenciada por jovens, estudada por críticos, celebrada por quem já tinha sido quebrado pela vida. Ela dizia que só sairia do palco quando a voz acabasse. Mas a voz não acabou. Quem acabou foi o corpo.
Elza Soares morreu em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, em casa, na cama, exatamente como sempre disse que desejava. Partiu sonhando.
Tem uma foto da Elza que sempre me atravessa. Não importa em que fase da vida ela esteja ali: há algo no olhar, no jeito de segurar o microfone, na postura de quem enfrenta o mundo com a própria voz, que resume tudo o que ela viveu e tudo o que ela ainda devolvia ao mundo. Fotos da Elza nunca são só fotos. São pistas da força que ela carregava antes mesmo de saber que seria força.
É estranho escrever tudo isso e pensar que alguém pode olhar para um texto desses e dizer que ficou grande demais para o Facebook. Talvez seja minha ingenuidade, mas sempre achei que histórias como a de Elza não cabem em parágrafos, cabem em livros, e ainda assim escapam pelas bordas. Eu poderia continuar escrevendo por horas sobre essa mulher que atravessou o impossível e devolveu ao mundo uma música inteira. Mas chega um momento em que a gente precisa aceitar que um texto termina, mesmo quando a vida que o inspira nunca termina de verdade. E no caso dela, uma coisa é certa: no fim das contas, não foi Elza que atravessou a vida. Foi a vida inteira que teve de se curvar para deixá-la passar.
Post a Comment