Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Poucas figuras da cultura brasileira me despertaram tanto fascínio quanto Zé do Caixão. Eu sei, parece mórbido. Mas quando a gente é criança, certas imagens se instalam antes mesmo da razão - nesse caso, dispensa explicação.
A cartola, a capa preta, as unhas longas demais para qualquer padrão de normalidade. Aquilo chamava atenção de um jeito quase físico. Era curiosidade, estranhamento, fascínio. Às vezes medo também. Na infância, essas sensações convivem sem conflito.
Ora, ora, se não é o bicho-papão brasileiro?
Com o tempo, a gente descobre que por trás daquela figura existia um homem chamado José Mojica Marins. E quanto mais se conhece Mojica, mais evidente fica a fusão entre criador e criatura. Ele emprestou o corpo inteiro a uma ideia. “Zé do Caixão não existe, não tem vida. Eu apenas usei o meu corpo, meu físico, para transmitir uma ideia.” Ainda assim, a ideia ganhou autonomia, atravessou gerações e ocupou um lugar próprio na cultura brasileira.
Mojica nasceu em 11 de março de 1936 e foi registrado dois dias depois, numa sexta-feira 13. Um detalhe real que parece escrito a lápis pelo destino. A infância foi marcada por deslocamentos constantes até que um episódio na Bahia mudou o rumo da família. Mojica passou uma tarde com um grupo de ciganos amigos. Um alagamento impediu o retorno e sua mãe atravessou horas acreditando que o filho havia sido raptado. A experiência levou à decisão de se fixar definitivamente.
O pai assumiu a gerência de um cinema em São Paulo, e a família passou a morar nos fundos da sala de exibição. Ali, o cinema deixou de ser evento e virou ambiente. Mojica cresceu cercado por imagens em movimento. Assistia a tudo sem distinção. Filmes educativos, informes de saúde pública sobre doenças venéreas, melodramas, faroestes e comédias de Charlie Chaplin. O olhar se formava pela repetição, pela variedade e pelo impacto.
Na adolescência, diante da promessa de uma bicicleta de corrida, Mojica escolheu uma câmera. Ao receber uma filmadora 9,5mm, começou a dirigir amigos e vizinhos. A brincadeira rapidamente ganhou estrutura. Um galpão usado como galinheiro se transformou em estúdio depois que as galinhas desapareceram de forma conveniente. O espaço virou cenário, sala de ensaio e salão de baile. As festas financiavam os filmes.
Nesse período, Mojica adotou um método peculiar de recrutamento. Ao se aproximar de alguma garota, perguntava quantos irmãos ela tinha. Famílias grandes significavam equipes completas. O cinema surgia da convivência, do improviso e da urgência. Com o tempo, ele buscou mais estabilidade e passou a publicar anúncios em jornais convocando interessados em fazer cinema. Aparecia muita gente curiosa, pouco preparada e completamente crua.
Sem formação técnica formal, Mojica desenvolveu uma lógica própria de atuação. O rosto se tornou campo de estudo. As expressões passaram a funcionar como gramática dramática. Aos 20 anos, ele organizou uma escola improvisada para treinar aqueles novatos. Aos 22, conseguiu financiamento para seu primeiro longa-metragem, A Sina do Aventureiro (1958).
O filme enfrentou censura, classificação indicativa restritiva e boicote religioso por conta de uma cena de nudez. Mojica aprendeu ali como funcionavam os limites impostos pela ditadura e pela igreja. Em busca de conciliação, dirigiu Meu Destino em Tuas Mãos, um drama musical infantil que colocava padres como figuras heroicas. O público reagiu com indiferença. A igreja aprovou a representação, mas não incentivou a exibição e sugeriu que ele abandonasse o cinema. Mojica seguiu adiante.
Dois anos depois, um pesadelo forneceu a imagem fundadora. Um homem vestido de preto o conduzia até a própria cova. Dali nasceu À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Surgia Zé do Caixão, o coveiro que rejeita a moral cristã e dedica a vida à continuidade do próprio sangue. Mojica reconheceu o potencial da história e levou o projeto adiante mesmo sem apoio. Profissionais recusaram o convite. Financiadores desacreditaram. Ele vestiu a cartola.
Ao lado do diretor de fotografia Giorgio Attili, construiu um filme visualmente sofisticado, com enquadramentos ousados, movimentos de câmera elaborados e iluminação expressiva. Para viabilizar a produção, contou com amigos, familiares, vendeu a própria casa e boa parte dos bens. O filme atraiu multidões, formou filas e se consolidou como um sucesso popular. Os direitos autorais vendidos antecipadamente impediram que esse sucesso se refletisse em estabilidade financeira.
Em 1967, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver deu continuidade à história. O filme enfrentou três interdições da censura e só chegou aos cinemas após a imposição de um final em que Zé do Caixão se arrepende e aceita Jesus Cristo. A censora responsável registrou que a obra representava um atentado à sétima arte. O público respondeu com entusiasmo. O personagem se consolidou.
Na sequência, Mojica dirigiu obras que orbitavam o mesmo universo simbólico, como Despertar da Besta, Delírios de uma Anormal e Exorcismo Negro. Neste último, criou um embate direto entre criador e criatura, colocando o próprio Mojica frente a frente com Zé do Caixão. A proposta antecipava em décadas discussões metalinguísticas que se tornariam comuns no cinema de terror internacional.
O mito ultrapassou as telas. O estúdio passou a funcionar numa sinagoga desativada. Ali, Mojica promovia testes de coragem com aspirantes a atores. Comer minhocas, beber álcool servido em crânios, permanecer trancado em caixões. Seleção de elenco e espetáculo conviviam no mesmo espaço. O público comparecia em peso. A perseguição militar levou ao encerramento das atividades e ao fechamento do local por falta de alvará.
Esse deslocamento levou Mojica à televisão. Em 1967, estreou Além, Muito Além do Além, na TV Bandeirantes. Em 1968, apresentou O Estranho Mundo de Zé do Caixão na TV Tupi. Tornou-se presença frequente em programas de auditório ao longo das décadas seguintes. A televisão funcionava como vitrine. “Eu não dava a mínima pra televisão. Eu queria utilizar a televisão para divulgar o cinema.”
Zé do Caixão se expandiu para outras mídias. Peça de teatro, livro, histórias em quadrinhos, perfumes, cachaça e até um álbum de marchinhas de carnaval. Para Mojica, o carnaval representava o desaforo do terror. “Carnaval é um desaforo do terror.”
Mesmo com reconhecimento, a vida material permaneceu austera. Mojica dividiu pequenos espaços com a esposa e os filhos. Ele atribuía isso à ausência de gestão profissional. “Eu fui um elemento mal assessorado. Sempre procurei um empresário com consciência e humanismo. Alguém que dissesse: eu levo meus 10% e acabou.”
No auge, lançava um filme por ano. A partir da segunda metade dos anos 80, o ritmo diminuiu. Para sustentar a produção, dirigiu pornochanchadas, impulsionado pela promessa de financiamento para Encarnação do Demônio, o encerramento da trilogia do Zé do Caixão. O roteiro, escrito ainda em 1966, permaneceu décadas aguardando condições favoráveis.
A retomada aconteceu em 2008, graças às leis de incentivo à cultura. Com orçamento de um milhão de reais, Encarnação do Demônio tornou-se o filme mais caro de sua carreira. A obra recebeu elogios da crítica, manteve o rigor estético e reabriu caminhos. O personagem retornou à televisão em uma nova versão de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, agora em formato de talk show no Canal Brasil.
Nos anos 1990, durante a redescoberta internacional de Mojica, a imprensa americana e o público de festivais passaram a estabelecer um paralelo direto entre Zé do Caixão e Freddy Krueger. As unhas longas, a presença física marcante e o protagonismo absoluto dentro de uma franquia de terror renderam ao personagem o apelido de “o Freddy Krueger brasileiro”. O detalhe histórico reposiciona a comparação. Zé do Caixão surgiu em 1963. Freddy Krueger apareceu apenas em 1984, criado por Wes Craven. Para muitos críticos, Mojica ocupava o lugar de precursor. Zé do Caixão já existia quando Freddy Krueger ainda não habitava os sonhos de ninguém.
No exterior, Zé do Caixão ganhou o nome de Coffin Joe e passou a circular por festivais, mostras e salas prestigiadas. Em 2005, Mojica recebeu a honra ao mérito cultural por sua contribuição ao cinema brasileiro. Mesmo com medo de avião, viajou o mundo para acompanhar o reconhecimento tardio.
Mojica morreu em 2020, vítima de broncopneumonia. O velório aconteceu no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, em clima de celebração. Ele desejava uma despedida alegre, com música, bebida e conversa. Queria riso em torno da morte.
Zé do Caixão permanece como ideia encarnada. Uma presença que atravessa o tempo, o cinema e a memória. Se existe alguma continuidade do sangue, algum eco depois do fim, Mojica já garantiu o seu. Nem que seja arranhando a tampa do caixão com unhas longas demais para o esquecimento.
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